
Pensar nos desafios da contemporaneidade significa entender que a crise esteve sempre presente no próprio processo civilizatório da humanidade. Todos sabemos dos desafios do dia a dia, que a crise faz parte da vida cotidiana de todos. Algumas crises colocam em questão os fundamentos da sociedade e essa é a crise em que vivemos. Não se trata, apenas, de conteúdo, de mudança, mas de modelo, por isso, uma multiplicidade de fatores nos atinge no cotidiano.
As mudanças tecnológicas aceleradas nos colocaram diante de uma crise de estrutura que fez abalar o modelo dasociedade moderna. Há tempos, fomos formados dentro de uma concepção linear. Comunicávamo-nos linearmente, ou seja, uma pessoa fala e o outro escuta, como se fala ao telefone, ou ouve-se um rádio. Hoje, entende–se que a linearidade do discurso não é capaz de dar conta da abrangência da vida, porque o comportamento humano apresenta alto grau de complexidade, diversidade, subjetividade, e os conflitos permeiam a existência humana. Como bem diz MORIN: ” O ato Ético é um ato de religação: com o outro, com os seus, com a comunidade e uma inserção na religação cósmica”.
Historicamente, o fenômeno da linearidade sempre foi problema na nossa civilização, contudo foi colocado embaixo do tapete. Esse próprio acúmulo de dificuldades gerou transformações. Então, como traduzir essa multiplicidade que vivemos nos tempos atuais, na linearidade que ainda se faz presente? Aí, é onde localizamos os desafios contemporâneos. É nesse ponto que eles começam a existir. Segundo MORIN, “o destino da humanidade é desconhecido, mas sabemos que o processo de existir modifica-se”. Sendo assim, sabemos que a vida é feita de pessoas que nascem e morrem constantemente. Tal fato gera uma heterogeneidade no que tange à visão de mundo e as inter-relações, pois os novos vão chegando, uma camada vai entrando e outra, saindo.
Dessa maneira, vivemos numa sociedade em que: um grupo pensa de forma complexa, cujo raciocínio funciona face a essa complexidade; um outro grupo, camada do meio, agrega parte de pensamento linear, juntamente com a visão sistêmica; e um outro grupo, dos mais antigos, em geral, olha de longe e observa o quanto o mundo mudou.
Importante ressaltar que hoje vivemos em rede, que o mundo contemporâneo pensa por complexidade. Então, que tipos de deslocamentos as mudanças tecnológicas têm produzido? Como a sociedade, de modo geral, tem lidado com os abalos sísmicos do mundo contemporâneo? Quais abalos são esses e que mundo é esse?
Em contrapartida, alguns fenômenos se manifestam como consequência de uma sociedade que estimula a apreensão constante de que tudo pode acontecer, produzindo o medo, remetendo a uma urgência, ao atalho para ganhar tempo, cuja cultura impõe modelos e padrões, gerando, assim, condições de ansiedade e de angústia.
A ansiedade, entretanto, tem várias vertentes. Quando considerada movimento, impulso para reagir ao cotidiano, na busca do que está faltando, incide positivamente na resolução de situações que são favoráveis, na constante busca pela espontaneidade da vida. De acordo com Sartre: ” A visão lúcida de uma situação, por mais sombria que seja, já é em si mesma um ato de otimismo; implica que essa situação é passível de reflexão, isto é, que não estamos ali perdidos, como
uma floresta escura, e que dali podemos, ao contrário, desprender-nos, pelo menos em espírito, mantê-la sobre nosso olhar, já ultrapassá-la, portanto, e tomar nossas resoluções em face delas…”
Quando se apresenta por sentimento de apreensão, na tentativa de controlar o futuro, dificuldade em lidar com imprevisibilidade, a ansiedade assume condição de angústia, medo, ânsia e incerteza. Significa que o indivíduo
acaba por não viver o presente, projetando-se num futuro ameaçador, na busca de algo que é inatingível, gerando
sofrimento.
Nesse sentido, a ansiedade é negativa quando acarreta danos à saúde e afeta as relações. Os transtornos de ansiedade podem ser porta de entrada para muitos sintomas e a origem de males. Do ponto de vista geral, a angústia diz respeito a um estado emocional de desconforto, associado a uma série de sinais somáticos, fisiológicos e psicológicos.
Um mundo comparativo e competitivo, onde o ter se sobrepõe ao ser e uma sociedade que ranqueia e promove
overdose de informações e precariedade de conhecimento, sem gerar algo construtivo para si e para os outros,
leva as pessoas a desconsiderarem a subjetividade e a reflexão. Em meio a esse cenário, a ansiedade desmedida é
fruto de uma avaliação disfuncional de si. É uma tentativa de controlar o ambiente, o futuro, evitando o sofrimento
e reagindo às imprevisibilidades. Afinal, o que importa é ser feliz.
Por outro lado, ao mapear o cenário contemporâneo, nota-se a ampliação da atmosfera patológica, reduzindo a
condição do que se preconiza como normal. Parece que, em meio a categorizar o sofrimento humano, cria-se
nomenclaturas e estados de adoecimento, pois, assim, fica mais fácil se encaixar no diagnóstico, o que, de alguma
forma, parece ser mais tranquilizador. É mais confortável saber o que se tem, do que investigar as verdadeiras
causas.
Em meio às vicissitudes do mundo moderno, pensar no resgate do ser é compreender que todo desenvolvimento
verdadeiramente humano significa permitir o desabrochar do conjunto das autonomias individuais, da compreensão melhor de si, do outro, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana.
Por fim, carecemos de confiança, custamos a buscar, na relação com o outro, abertura de canais para construção de condições de empatia, a fim de nos posicionarmos frente a um mundo cada vez mais complexo, cujas relações se estabelecem em forma de rede e nos convidam a construir ações em prol de uma coexistência que gere e favoreça a continuidade da vida.


