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Bullying se origina da palavra em inglês bully, que se refere ao ato de maltratar, ameaçar, assustar. É um termo utilizado para caracterizar agressões verbais  ou físicas, de modo repetitivo, por um ou mais alunos, direcionadas a um ou mais colegas. Há, portanto, três elementos básicos que caracterizam o  bullying: a repetição, a intenção de causar prejuízo e a desigualdade de poder.

Segundo Ana Beatriz Silva, no livro intitulado “Bullying: mentes perigosas nas escolas”, apesar de sempre ter existido nas escolas, foi há aproximadamente trinta anos que o bullying passou a ser analisado sob a perspectiva científica e
recebeu esta denominação. No Brasil, a temática somente começou a ser identificada e abordada a partir do ano de 2000, por dois pesquisadores que implementaram um programa de combate ao bullying chamado “Educar para a
Paz”, em São Paulo. O tema vem sendo analisado por pesquisadores e educadores, por ser um fenômeno que pode ocorrer em qualquer tipo de escola, seja particular ou pública, rural ou urbana, independente das condições
econômicas e sociais das pessoas envolvidas.

Levando em consideração os referenciais da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA) e tendo como parâmetro a natureza repetitiva, persistente e intencional do ato, o
bullying pode ser identificado através de algumas ações como: ofender, zoar, humilhar, fazer sofrer, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, quebrar pertences.

Por sermos seres essencialmente sociais, em função da própria natureza  humana, conflitos sempre irão existir nos espaços em que há relações interpessoais. Percebendo a escola como um espaço de ampla socialização, que agrega a convivência de múltiplas subjetividades, diferenças étnicas, de ideias políticas, concepções religiosas, posições econômicas e referências comportamentais, entende-se que conflitos são suscetíveis de ocorrer. No entanto, é de extrema importância a distinção do que é considerado bullying de situações de conflitos presentes no convívio escolar, atos de indisciplina, agressividade ou comportamentos antissociais, tendo em vista que bullying reflete atitudes persistentes de violência, intolerância e intimidação, que  provocam controle e domínio sobre um outro incapaz de se defender.

À luz da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano, o bullying é entendido como um fenômeno que sofre influência de variados sistemas. Dentre alguns deles, estão: a) as características pessoais que dizem respeito às experiências e habilidades individuais que podem atenuar ou inibir ocorrências nas relações que são estabelecidas; b) o contexto que se refere ao meio em que o sujeito se desenvolve, caracterizado pela escola, família (microssistemas) e, numa perspectiva mais ampla, pela comunidade, cultura, regras, valores e influências da sociedade em que esta pessoa está inserida (macrossistemas).

Nessa perspectiva, propõe-se aqui um olhar sobre o bullying para além da relação dicotômica entre “agressor e vítima”, mas, sobretudo, para uma visão sistêmica diante da complexa gama de sistemas que podem contribuir ou não
para a manutenção do fenômeno.

Recentemente, foi sancionada uma lei pelo Congresso Nacional que instituiu o Programa de Combate ao Bullying pelas escolas (lei nº 13185 de 06/11/2015).  Dentre alguns pressupostos, a lei recomenda que os educadores evitem ao
máximo punir os agressores e pressupõe que sejam desenvolvidos instrumentos que promovam a mudança do comportamento hostil de quem pratica o bullying, além de buscar promover a cidadania, a capacidade empática e o respeito aos outros, numa cultura de paz e tolerância mútua.

Assim, como previsto pela legislação, o bullying deve ser percebido numa perspectiva mais ampla do que a punição e culpabilização dos envolvidos.

Óbvio que todo e qualquer projeto formativo que combata o bullying deve responsabilizar efetivamente todos os envolvidos, mas é de fundamental importância que a ação possa proporcionar, no espaço escolar, reflexões que
sejam capazes de formar valores, atitudes e possam transcender os muros da  escola e ecoar na sociedade.
Desafios? Sim, são muitos, principalmente quando percebemos a profunda influência que os aspectos culturais e sociais exercem na construção biopsicológica de cada indivíduo. Os desafios se tornam ainda maiores quando nos percebemos num contexto de evoluções tecnológicas, velocidade das  informações, crises nos sistemas sociais, culturais e familiares. Tudo é rápido, fugaz, e os valores humanos que balizam as interações refletem a efemeridade do contexto e não se mostram tão firmes e consistentes.

No âmbito escolar, pensar em projetos educativos que sejam capazes de provocar transformações é pensar em buscar uma (re)construção de paradigmas e um resgate de valores que façam emergir prioritariamente a exaltação da cultura da paz, da tolerância e do respeito ao outro.

Seja no ambiente escolar, como educadores, ou na sociedade, como pais ou cidadãos, devemos formar nossos jovens para o exercício da ética, dos valores, das práticas que garantam boas relações de convivência. Assim, estarão preparados e predispostos para a construção de um novo mundo, menos violento e mais humano.
Andréa Guedes é Psicóloga e especialista em Projetos Sociais, possui formação em Mediação de Conflitos e em Neuropsicologia e atua no Villa como Orientadora Educacional do 2º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

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